Arquivo de Agosto 2009

A UNESCO LANÇA GUIA DE EDUCAÇÃO SEXUAL PARA JOVENS

Agosto 30, 2009

Será que é desta vez que a Educação Sexual para Jovens ocupa o lugar a que, há muito, tem direito?

A hipocrisia que tem reinado nesta área, aos níveis das políticas da educação e da saúde, vão certamente, a reboque das recomendações da Unesco. Mesmo assim, esperamos por Outubro para ver…

Transcreve-se, abaixo a notícia da Agência Lusa de 28.08.2009.

A UNESCO elaborou um guia de recomendações destinado a educadores que pretende melhorar a educação sexual dos mais jovens, na sua opinião, “inadequada” em muitas regiões do mundo, informou hoje a organização.

A sida [aids], as doenças de transmissão sexual, a gravidez não desejada, a exploração sexual e os abusos constituem os principais perigos para os jovens na atualidade, mas o que é preciso é mais informação, assinala um comunicado da organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Baseada em 87 estudos realizados em países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, o guia, elaborado pela UNESCO em colaboração com o Fundo da ONU para a População (UNFPA) e outras instituições, tem a assinatura do investigador Douglas Kirby e da directora de Educação do Conselho de Educação e Informação Sexual dos Estados Unidos, Nanette Ecker.

Intitulado “Princípios Internacionais sobre Educação Sexual”, o documento inclui diretrizes, de caráter voluntário, que abordam uma educação eficaz sobre :

1.Sexualidade

2. Relações pessoais

3. Sida e as doenças de transmissão sexual.

“Se o objetivo é reduzir os comportamentos sexuais de risco, então os programas precisam focalizar-se e incluir recomendações concretas”, disse Kirby.

As recomendações elaboradas “podem e devem ser adaptadas na sua aplicação” a cada uma das diferentes culturas”.

Segundo o documento, uma educação sexual eficaz é um elemento importante para a prevenção do HIV e para conscientizar desde muito cedo os mais novos para as consequências deste problema que afeta cinco milhões de jovens em todo o mundo, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os objetivos pedagógicos do relatório distribuem-se por seis grandes temas:

1.As relações pessoais

2.Os valores

3.Atitudes e as qualidades

4.A cultura, sociedade e legislação

5.O desenvolvimento humano

6.Os comportamentos sexuais e a saúde sexual e reprodutiva.

Por outro lado, estabeleceram-se quatro categorias em função da idade:

1. 5 aos 8 anos

2. 9 aos 12

3. 12 aos 15

4. mais de 15.

“As matemáticas e as ciências são consideradas como conhecimentos úteis que os jovens têm de possuir, assinalou a co-autora do relatório, Nanette Ecker, sublinhando que “a educação sexual deve ser valorizada da mesma maneira”.

Estes princípios internacionais serão apresentados na Conferência Internacional sobre Educação Sexual e Relações Pessoais que se realiza no Reino Unido em Setembro e lançados oficialmente na sede das Nações Unidas de Nova Iorque no final de Outubro.

unesco

GANHAR MENOS E TER MELHOR QUALIDADE DE VIDA

Agosto 28, 2009

Acabo de receber do CRIASnotícias o artigo que, abaixo transcrevo, “Brasil: Profissão em alta, vida sexual relegada” e que me reporta para Lafarge, genro de Karl Marx, que sempre reivindicou o direito à preguiça. A lógica consumista veio para ficar e impõe as suas regras:
1.Trabalhar mais
2.Ganhar mais
3.Consumir mais ainda
Não me causa estranheza que o horário de um médico português”especialista” ronde as 12/14 horas diárias porque, aos poucos foi sendo empurrado para a lógica capitalista e muitos deles/as são verdadeiros escravos(as) de actos médicos rotineiros e stressantes.
O assunto do artigo que se segue seria uma temática a aprofundar numa tese de doutoramento em Portugal – já que “um mestrado bolonhês” não abarcaria muito mais do que uma revisão bibliográfica – e teria publicação garantida, mesmo para não académicos.

Brasil: Profissão em alta, vida sexual relegada
Quase 32% dos médicos têm ausência de orgasmo, 17,6% são infiéis e 21,9% deles não usam camisinha.A falta de cuidados com a saúde diária também se reflete na vida emocional e sexual do médico. O livro “O Sonho do Jaleco Branco”, de Déborah Pimentel, mostra um retrato aproximado dessa questão tão delicada por meio de uma pesquisa feita com 670 profissionais de Sergipe, mas que, em tese, pode refletir outras regiões nordestinas. Quase 10% dos médicos nunca ou raramente têm satisfação sexual. O número ainda aumenta quando diz respeito a distúrbios sexuais, chegando a 35,1% (3,5 em cada 10), segundo Déborah. É um número aproximado dos dados do CFM, onde 4 entre 10 médicos brasileiros (40%) admitem redução da libido e 30% estão insatisfeitos com a vida sexual.A média da população brasileira insatisfeita com o sexo é de 20,5% para os homens e 23,6% para as mulheres, segundo pesquisa Mosaico Brasil, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Ou seja, menor que a do médico. Déborah explicou que, os mesmos médicos que dizem ter casa própria (86%), automóvel (93%) e consultório próprio (27%), por exemplo, estão com dificuldades na vida amorosa. Entre os que admitiram ter problemas nessa área da vida, ela destaca ausência de orgasmos em 32%, dor nas relações sexuais em 19%, ejaculação precoce em 18%, vaginismo em 2% e impotência em 1%. “Quase 30% só têm relação sexual uma vez por semana e 7%, uma vez ao mês”, afirmou.Segundo a professora, 17,6% dos médicos são infiéis, mesmo com relacionamentos estáveis e 21,9% tem relações sexuais de risco, raramente usando preservativos. “Quando se faz uma pesquisa com esta intenção é para que ela represente um todo. Ou seja, a amostra reflete outras regiões, sim. Médico é essencialmente gente, com fraquezas, limites, sonhos, fantasias e mazelas. O fato de ser médico não o deixa imune às doenças de qualquer natureza, inclusive às disfunções sexuais, ou qualquer outra coisa”.
Para Déborah, os médicos se descuidam com a saúde, mesmo sabendo a “gênese das doenças”. “Eles não usam seus conhecimentos a serviço da própria saúde. Talvez tenham a fantasia da onipotência e imunidade, por isso não se protejam e sejam tão negligentes consigo mesmo”, completou.Com vergonha de admitir a crise na vida amorosa, o médico paraibano Carlos Silva (nome fictício) corrobora a tese da professora Déborah. Ele trabalha no Departamento de Infectologia do Hospital Universitário Lauro Wanderley, da Paraíba, e disse que a falta de estímulo sexual é provocada pelo desgaste físico e emocional no trabalho, diante de pacientes em condições de extrema pobreza e estado de saúde delicadíssimo.
Carlos trabalha onde a maioria das pessoas não quer passar meia hora, por medo de pegar doenças contagiosas. “A gente não consegue deixar de se envolver com os pacientes. Então, isso afeta muito nossa vida pessoal como um todo. O tempo que nos resta, a gente tem que se atualizar, e a vida amorosa vai ficando em segundo plano”, observou. (AM)O Norte – 26.08.2009
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QUANTOS CAMINHOS, AFINAL, TEM O SER HUMANO QUE PERCORRER?

Agosto 27, 2009

A PERPETUAÇÃO DOS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO COMEÇA NO/A BEBÉ

Agosto 26, 2009

Se não acredita que continuamos a perpetuar os estereótipos de género desde o nascimento de uma criança, observe:

1. Roupa de bebé

Se um bebé estiver vestido com roupa cor-de-rosa, não se engana porque se trata de uma menina. Se estiver vestido de azul, é, quase certo que estamos na presença de um menino.

2. Brinquedos de bebés

Os ursinhos cor-de-rosa, coelhinos e patos são propriedade das meninas. os ursinhos azuis e dinossauros indicam que os propritários são meninos.

3.Comportamento dos pais

As meninas, quando choram, são embaladas com muita doçura. Os meninos, quando choram, são embalados de modo mais enérgico.

Se ouvir dizer que um bebé se está a portar mal, já sabe que se trata de uma menina. Se ouvir dizer que “este bebé é muito vivo”, é quase certo que se trata de um rapaz.

Se tiver dúvidas, espreite para dentro da fralda!

As empregadas das lojas para bebés afirmam, de modo peremptório, que a responsabilidade é dos pais. Algumas delas, mais sensíveis a estas questões, tentaram, de uma maneira pedagógica, mostrar-lhes que estavam a rotular as crianças, ainda  bebés. Tudo foi em vão, não os conseguem convencer…

Afinal, algumas/alguns de nós andámos estes anos todos a pregar para quem?

bebe vermelho

AS MULHERES PORTUGUESAS ESTÃO A DESISTIR DE TER FILHOS

Agosto 24, 2009

O apoio à natalidade deste Governo não convenceu as mulheres portuguesas a não desistirem de aumentarem a sua prole, não obstante 50% das portuguesas afirmarem que gostariam de ter mais filhos.

Segundo um relatório recente da Eurostat, em 2008, a população portuguesa registou um saldo positivo de 310 pessoas. Nasceram 104.590 bebés e morreram 104.280 pessoas O conhecido demógrafo Mário Bandeira aponta o dedo às práticas discriminatórias nos empregos contra as mulheres que tenham filhos ou declarem estar a pensar tê-los, num país em que as mulheres são das mais activas da Europa e que “são elas quem acaba por ter mais obrigações em relação aos filhos”.

Os tempos mudaram. Hoje as mulheres não pertencem aos homens, isto é, não são sua propriedade.

Ainda há bem pouco tempo, a mulher vivia na dependência material e, não só, do marido.

O ditado popular, que a seguir transcrevo, ainda está presente nas mentes de muitas mulheres da actualidade, por herança das mães ou das avós.

 “ -Oh Mãe, o que é casar?

– É fiar, parir e chorar”

Por que se fala do linho? O tratamento do linho era uma das muitas tarefas domésticas das mulheres. Ela semeava-o, mondava-o e colhia-o. Em seguida era lavado, secado, batido, separado, fiado, dobado e tecido. Uma vez obtido o linho, havia que fazer as peças de vestuário e de uso doméstico. Para se fazer o tratamento do linho, era necessário dominar diversas técnicas e conhecimentos.

“ (ao longo de toda a história) … mulheres em toda a parte cuidaram das suas crianças, ordenharam o gado, cultivaram os campos, lavaram, cozinharam, limparam e costuraram, trataram dos doentes, velaram os moribundos e prepararam os mortos…A extraordinária continuidade do trabalho das mulheres, de país para país de época para época, é uma das razões da sua invisibilidade; a visão de uma mulher a amamentar um bebé, a mexer um cozinhado ou a limpar o chão é tão natural como o ar que respiramos, e,  tal como o ar, não atraiu qualquer análise científica antes do período moderno ” (Miles, Rosalind, The Women´s History of the World). 

Enquanto houvesse trabalho para ser feito, as mulheres faziam-no, e, por detrás das actividades visíveis de papas e reis, guerras e descobrimentos, tirania e derrota, as mulheres trabalhadoras teceram o tecido real do tipo de histórias que ainda espera o seu reconhecimento( o sublinhado é meu).

A dependência  das mulheres do ponto de vista material e das boas ou más vontades  dos maridos contribuiu para perpetuar o mito “ a minha mulher, não trabalha, é doméstica…está em casa”.

A geração da actualidade não precisa só de saber trabalhar com as novas tecnologias, de saber Matemática e Inglês, é-lhe igualmente importante conhecer as suas raízes e quanto à História, conhecer não só a dos Homem mas igualmente a da Mulher. 

 rapariga

 

A Medicina tem-se vindo a distanciar das pessoas de carne e osso

Agosto 23, 2009

 Dos meus blocos de vida, fazem parte notas avulso que fui guardando, ou melhor empilhando em arquivos, ainda por catalogar. Mas, desta vez, a memória espacial não me traiu e encontrei, de rajada, o que restou de uma conferência intitulada “Antropologia Médica, Sexualidade e Clínica” de Júlio Machado Vaz, aquando do 1º Curso Pós – Graduado de Sexologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Segundo, Machado Vaz, “o investimento do médico na pessoa foi-se desvanecendo, as drogas não o exigiam. Como facilitaram um relativo desprezo pela recolha cuidadosa da história clínica e pelo exame físico rigoroso. Quanto ao efeito catártico…, o espaço para o discurso do doente não abunda”. Em resumo, da estrutura da consulta, faz parte :

1.Um estilo breve e até impaciente da recolha da história.

2.Atenção diminuta ao exame físico.

3.Notória obsessão pelos resultados laboratoriais/técnicas geradoras de imagens.

4.Manutenção pelo interesse do diagnóstico diferencial.

Entretanto, o que nos dizem os estudos?

1.Entre 1975-1980, metade dos cirurgiões da Florida foram levados à barra dos tribunais.

1.1. Entre 1975-1985, as queixas por negligência aumentaram 100%.

1.2. Os pedidos de indemnização, subiram de 18.000 dólares para 100.000.

1.3. As sondagens de opinião nos anos 80 revelaram que cerca de dois terços dos doentes estariam dispostos a mudar de médico na esperança de um melhor acolhimento.

2. Em Inglaterra, o recurso às medicinas paralelas aumentou 42%, entre 1981-1985.

3. Há cerca de 9 anos, um inquérito publicado pelo jornal Público referia a falta de disponibilidade como a principal queixa dos doentes.

O mundo que nos rodeia, muito para lá dos anfiteatros, é assim. Fragmentado, as narrativas individuais cruzam-se vertiginosamente como estilhaços de bombas silenciosas, pelas ruas as pessoas afadigam-se para não perderem autocarros, reuniões, saídas de infantários. Permanentemente em trânsito, queixam-se de sobreviver com dificuldade à vida”.

A lucidez e sabedoria do orador desta conferência permitiu-me reflectir, uma vez mais, que “o outro” tem exactamente como “eu” o direito de procurar diminuir os seus sofrimentos, incluindo aqui também os nossos inimigos (ou aqueles/as que pensamos que são nossos inimigos).

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BREVE ESCLARECIMENTO SOBRE A CARACTERIZAÇÃO DO EXAME MÉDICO-LEGAL NO INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL

Agosto 22, 2009

Na continuação do post de 21 de Agosto ” Menor Alegadamente Violada Espera 12 Horas por Peritagem”, observou-se desinformação pública sobre as competências do Instituto de Medicina Legal, neste tipo de ocorrências.

O Instituto de Medicina Legal é o mediador entre a Medicina e o Direito. Assim, o/a médico/a legista, nos casos de violação, deve observar :

1. Os vestígios de violência ou luta na vítima

2.Vestígios do acto sexual

3.Descobrir e identificar manchas de sangue ou esperma

4.Investigar e provar a contaminação venérea que eventualmente possa haver e descobrir falsas acusações por considerações médico-legais.

5.Também compete ao médico-legista realizar o exame do agressor, o que raramente é possível.

O exame pericial,  cobre três áreas anatómicas:

1. A área extra-genital (identificação de equimoses, escoriações e contusões), boca (alterações à volta da boca e narinas), pescoço (identificação de elementos que possam despistar tentativas de estrangulamento ou esganadura), tórax, mamas.

2.Quanto à área genital, são observadas a vulva, a vagina, o hímen, o períneo e o ânus.

3.Relativamente à área paragenital, é observado o terço inferior da parede abdominal anterior, nádegas e parte interna das coxas.

4. São ainda recolhidos os sapatos e roupa para análises, amostras de cabelo e unhas, ou outros materiais que serão enviados para o laboratório forense.

Pode ser necessário recorrer a sedativos ou anestesia para colheitas de amostras mais complexas. A vítima não deverá realizar práticas de higiene.

medicina legal